UMA BREVE HISTÓRIA SOBRE A DISTÂNCIA

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“Não há nada em lugar nenhum/que vá crescer sem você chegar”. É o que ele ouve aos prantos no sofá de casa. Depois de tê-la deixado no aeroporto, botou um Djavan e abriu uma cerveja. O que fazer nesta terça-feira ensolarada? Todo dia de despedida tinha que ser domingo. E, sobretudo, chuvoso.

Porque aí, o dia seguinte seria segunda. E segunda é o Dia Internacional da Matrícula na Academia, ou do Início da Dieta, ou da Inscrição Naquele Novo Curso Online que há anos você diz que vai fazer e que já até deixou de ser Novo. Na segunda, a cabeça pensa em várias tarefas para ocupar a cabeça. E assim a gente vive.

Mas, “porra”, numa terça-feira ninguém viaja! Ninguém vai embora! Ninguém pode ir embora! No meio da semana não pode ter despedida porque toda despedida é o fim do mundo. E quem fica? Faz o que? Volta ao trabalho? Vai à faculdade?! Ele fica inconformado, mas quieto. Chora com sua partida. Mas sabe que ela é livre mesmo o amando.

Ela cruzou o portão dos Voos Internacionais. Disse que vai encontrar uma amiga em sei lá aonde. Prometeu que, todo dia, à noite, os dois iriam conversar. E deixou uma lista para o namorado com livros, filmes, séries e até músicas do “nosso gosto”. Músicas alegres e gringas para se lembrarem, sempre sorrindo, um do outro. “Três meses é rápidinho, amor”

No primeiro mês, seguiu a cartilha. Comprou dois livros da lista, viu uns dez filmes do “nosso gosto”, e série não conseguiu ver nenhuma porque não suporta série. Ouvia aquelas músicas eletrônicas como engolia um remédio – se convencendo de que seria bom para a sua saúde. Sabia que, se ouvisse um samba ou uma mpb, iria empacar na tristeza. E ficava no quarto, o dia todo, esperando o momento dos dois por Skype. Era sempre um conforto vê-la feliz e ambiciosa, ganhando o mundo.

Mas, ele começou a se perguntar o que fazia. Se estava seguindo sua vida ou a vida dela. Seus próprios gostos ou os dela. Se gostava mesmo daquelas músicas felizes e em inglês. Se gostava mesmo daqueles livros e filmes do “nosso gosto”. “Que gosto nosso é esse que criamos?”, ele pensava, pois, antes dela surgir, ele tinha repulsa à música eletrônica, por exemplo. “O amor não é uma parceria?”. E estava convicto de que já cedeu mais de sua vida do que devia. A distância é mãe da insegurança e avó da raiva.

Assim, desencadeou-se uma raiva sem limites. Ele sentia raiva sabendo que seu humor dependia de uma mensagem no whatsapp ou um facetime com a amada. Sentia raiva sabendo que não estava crescendo em nada, enquanto ela postava lindas fotos em praças. Sentia raiva por não ser livre como sua namorada. Ele a amava, mas dependia dela. E que raiva isso dava. E, mais ainda, que raiva de sentir raiva. “Minha vida de solteiro era bem mais mansa”, pensava.

E, lentamente, a imagem da namorada estava se apagando. Ele se excluiu do instagram para não a ver mais sorrindo. Diminuiu as entradas no facebook para não ficar mais chorando. Dizia estar com problema na internet de casa para não ligar o skype. E a indiferença engoliu todos os seus sentimentos: “amar cansa”.

Sua namorada voltou mais magra, ficou sabendo. Tatuou um avião no punho e está com um lado da cabeça raspado. Começou a gostar de cerveja e parou de andar de Uber. Foi fazer comunicação na UFRJ. Já ficou com um cara. E começou a dar mais valor à música latina – menos a brasileira. Isso tudo, enquanto ele ainda ouvia Djavan no sofá de casa.

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